Etanol, uma ponte para o futuro?

Rogério Machado*

Fiat 147 comemorando 40 anos do lancamento do etanol.Ao anunciar, no final de maio último, os investimentos para a produção de uma nova geração de motores turboalimentados, a Fiat já havia dado indicações sobre seus planos de revisitar a tecnologia do álcool, desenvolvida de modo pioneiro, por ela mesma, durante a década de 1970. O álcool combustível utilizado pelos automóveis é do tipo etílico, denominado etanol.

Em uma reunião com jornalistas, na última semana, comemorando os 40 anos do lançamento de seu primeiro motor a álcool (etanol), em 1979, a FCA (Fiat Chrysler Automóveis) deixou claros seus planos para a redução de emissões e, neles, o combustível alternativo volta a assumir um papel importantíssimo.

O evento abusou da criatividade colocando a disposição dos jornalistas nada menos que um Fiat 147 movido a etanol, um exemplar raro, o primeiro com esta motorização a ser comercializado e apresentando o mesmo motor que recebeu há quarenta anos.

O veiculo, vendido para a receita federal em 1979, esta pintado com as cores do órgão e passou a fazer parte do acervo da Fiat recentemente.

O Fiat 147 movido a etanol. De volta a pista em que foi testado 40 anos atras.Em um primeiro momento, pode parecer que após tantos anos o projeto do motor a etanol já tenha atingido sua evolução máxima. Ocorre que, na hierarquia cientifica, os motores flex sempre foram orientados para a gasolina com o etanol ocupando a segunda opção: eram motores a gasolina adaptados para o etanol.

Entre outros efeitos colaterais podemos citar a curva de consumo do etanol, sempre bastante desfavorável quando comparada à da gasolina que, diga-se de passagem, também é prejudicada nesta parceria etílica.

Ora, o que aconteceria se invertêssemos as posições e esta mesma engenharia fosse orientada para o etanol, buscando obter dele um comportamento ideal?

Regionalização da atriz energética

As normas de emissão de gases conduzem o planeta a um momento decisivo e será inevitável a eletrificação gradativa da frota de cada pais. Os objetivos de redução dos gases nocivos são verificados levando-se em conta a frota total.

O número de veículos movidos à gasolina e diesel, em relação aos elétricos e híbridos, sofrerá uma variação na balança devido ao estreitamento dos objetivos, resultando na participação cada vez maior do segundo grupo.

O engenheiro Robson Cota exibindo uma das pranchas do projeto do Fiat 147.O engenheiro Robson Cota exibindo uma das pranchas do projeto do Fiat 147.

Os países europeus, por exemplo, não tem outro caminho, irão transitar gradativamente da gasolina e diesel aos híbridos e elétricos a um custo elevado, já que a implantação da infraestrutura necessária para a nova matriz ainda esta engatinhando.

Isso tudo sem contar que a eletricidade também oferece grandes desafios, uma energia limpa cuja cadeia de produção pode ser altamente comprometedora.

O Brasil, por outro lado, como detentor da tecnologia do etanol desde os anos 1970, já passou pela fase de adaptação ao combustível alternativo, não somente sob o aspecto técnico, mas também na produção e logística.

O investimento em uma nova geração dos motores à etanol se mostra como uma forte alternativa à redução de gases, deixando o Brasil em uma posição relativamente confortável nesta transição tecnológica entre os motores a combustão e os elétricos.

Já temos o combustível e a cadeia de distribuição, o que falta é uma “sintonia fina” e o desenvolvimento de novos propulsores projetados para o etanol e, não, “adaptados” para ele.

A soma dos ciclos sera exigencia europeia a partir de 2023.A soma dos ciclos será exigência europeia a partir de 2023.

Corrida de obstáculos

A emissão de gases nocivos é analisada em dois conceitos. O primeiro foca na poluição lançada pelo próprio veiculo através do tubo de descarga e é chamado de TTW ou Tank-to-wheel (do tanque do carro até as rodas).

O segundo se refere às emissões de gases geradas em todo o ciclo de obtenção do combustível e considera as emissões resultantes do funcionamento de equipamentos, tratores, geradores, caminhões e outros veículos utilizados na prospecção, extração, refino e logística do petróleo até que chegue ao posto de abastecimento.

Isto também acontece com a produção do etanol com as máquinas usadas durante o preparo da terra, no cultivo da cana, na sua colheita, na operação da usina e na logística.

Este ciclo é chamado de WTT ou Well-to-tank (da fonte primária de combustível até chegar ao tanque do carro).

A partir de 2023, as exigências de redução de gases dos veículos irão considerar os dois ciclos descritos acima, ou seja, a poluição causada desde a obtenção do combustível até a resultante da sua queima pelos veículos, este ciclo é chamado de WTW, ou Well to Wheel (da fonte primária até a saída na descarga do veículo).

Os engenheiros Robson Cota (esq) e o Ronaldo Avila (dir) entrevistados pelo Diretor de Comunicacao Fernao Silveira (centro).Os engenheiros Robson Cota (esq.) e o Ronaldo Avila (dir.), entrevistados pelo Diretor de Comunicação da FCA, Fernão Silveira

A indústria dispõe de quatro anos para se adequar e aí entra outra grande vantagem do etanol: a plantação de cana de açúcar absorve carbono durante a fotossíntese, lançando oxigênio na atmosfera.

Desta forma, a adoção do álcool em maior escala praticamente neutraliza as emissões relativas ao ciclo completo (WTW). A oportunidade que se apresenta é única.

Frentes de atuação

Para consolidar este processo, e obter o máximo dos motores a etanol, é interessante verificar que a qualidade do combustível também desempenha um papel importante e, para isso, a introdução do etanol de segunda geração (2G) é primordial.

Este novo etanol utiliza resíduos de milho e cana, o que resulta em uma maior produção com menor dispêndio de energia. Outra demanda tecnológica dos novos motores é a redução da água presente no etanol, com ganhos de performance e consumo.

O futuro logo ali

Segundo as previsões do engenheiro João Irineu, um dos responsáveis pela reengenharia dos motores a etanol da FCA, o amadurecimento destas tecnologias nos levara a uma nova fase reunindo as vantagens do etanol aos propulsores híbridos e plug in híbridos e, quem sabe, no futuro, explorar as possibilidades de uma célula de combustível utilizando etanol. Estaremos acompanhando de perto.

O engenheiro Joao Irineu. Dirigindo o novo caminho do etanol.O engenheiro João Irineu. Dirigindo o novo caminho do etanol.

Fotos: Rogério Machado

*Colaborador

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