BYD Dolphin abalou todo o mercado

Com preço competitivo e muita tecnologia, chinês vem obtendo ótimas vendas

Amintas Vidal*   (Publicado no Diário do Comércio – Edição: 08/12/2023)

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É raro, mas às vezes acontece. Montadoras estreantes ousam em seus preços para entrarem no mercado fazendo barulho. Inicialmente, a chinesa BYD (Build Your Dreams) importou dois carros 100% elétricos, grandes e de luxo, um sedan e um SUV, ambos na casa de R$ 500 mil.

Depois, já mostrando ousadia, trouxe dois SUVs médios, um híbrido e mais espaçoso e, outro, 100% elétrico e menor, os dois vendidos no mesmo valor, aproximadamente R$ 270 mil.

Mas, a pedra de Davi na testa do Golias responde por Dolphin, um hatch compacto com jeitão de monovolume, espaço interno de médio, design ousado, principalmente na cabine, e acabamento muito acima da média para um carro não premium.

Lançado em junho por R$ 149,80 mil, este preço estava no patamar dos elétricos subcompactos como o Renault Kwid e-Tech, o Chery iCar e o JAC E-JS1, carros muito mais simples. Mas, o Dolphin concorre com elétricos compactos como os Peugeot e-208 e e-2008, o Chevrolet Bolt e o Mini Cooper Elétrico, modelos que iam dos R$ 250 mil aos R$ 300 mil.

De cara, todos os subcompactos tiveram seus valores reajustados para ficarem mais baratos do que a novidade. Entre os concorrentes diretos, também houve baixas. Seus preços despencaram, mas nenhum chegou perto de ameaçar o sucesso do modelo chinês.

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Só na pré-venda, foram reservadas 3.000 unidades do Dolphin. Ele já é o carro elétrico mais vendido no Brasil.

Desde agosto, o modelo figura entre os 50 automóveis mais comercializados em nosso mercado, fechando novembro com 4.561 emplacamentos, a 41ª posição nesta lista, segundo dados fornecidos pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

O Veículos recebeu o BYD Dolphin EV para avaliação. Ele ainda é vendido pelos R$ 149,80 mil do seu lançamento.

Neste preço, os compradores recebem um wall Box, equipamento doméstico para recarregamento, certamente, um dos motivos do sucesso em suas vendas.

Entre seus inúmeros diferenciais, chama a atenção a carroceria pintada em cores combinadas a pequenos detalhes em outra cor.

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A cor cinza é combinada ao laranja, a rosa ao cinza e a areia ao preto. O modelo na cor preta é o único que não traz estes detalhes em outra cor. Em qualquer cor, o preço se mantém.

Completando a elaboração cromática, existem padronizações internas exclusivas para as opções de carroceria em cinza e rosa, combinações de cores internas, painéis e revestimentos nestas mesmas tonalidades.

Com a lataria pintada nas cores areia ou preta, o Dolphin EV conta com um mesmo interior, uma aplicação mais discreta dessas duas cores na cabine.

Equipamentos – Mesmo sendo a versão de entrada, o Dolphin EV é bem equipado. Ele não oferece pacotes opcionais.

De série, seus principais equipamentos são: multimídia tipo tablet rotativo de 12,8 polegadas, espelhamento para Apple CarPlay e Android Auto com cabo e GPS integrado; quadro de instrumentos de 5 polegadas do tipo LCD e definição HD; volante multifuncional; ar-condicionado automático e digital; chave presencial e partida por botão; revestimentos internos em material sintético que imita o couro; roda diamantada de 16 polegadas e pneus 195/60 R16.

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Em termos de segurança, essa versão conta com pouco mais do que o básico para a categoria. Ela traz seis airbags; controles de estabilidade e tração; assistente de partida em rampas; freios a disco nas quatro rodas com sistema automático de limpeza dos mesmos; sensores de aproximação traseiros; câmeras de estacionamento com definição HD e visão 360°; sensor crepuscular; faróis e lanternas em LED e monitoramento de pressão dos pneus.

Motor e Câmbio – O Dolphin EVconta com um motor elétrico e tração dianteira. Ele rende 70 kW, o equivalente à 95 cv, e entrega 18,3 kgfm de torque, praticamente, em todo o regime de utilização.

O câmbio é automático com apenas uma marcha. Ele é acionado por meio de um pequeno comando cilíndrico com as posições “R”, “N” e “D” em seu movimento rotativo.

O “P” é posicionado na extremidade deste cilindro, em um botão de pressão. Esse design permite operação com apenas dois dedos, polegar e indicador, mais uma inovação do modelo.

O motor é alimentado por um conjunto de baterias do tipo LTP. Denominada Blade, essa tecnologia é mais segura contra perfurações e incêndio.

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Sua capacidade é de 44,9 kWh e, no rigoroso ciclo PBEV, padrão do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), o Dolphin EV tem 291 km de autonomia.

Para a sua recarga, o sistema usa tomadas Type 2/AC (corrente alternada) na potência máxima de 6,6 kWh, ou CCS 2/DC (corrente contínua) que pode atingir até 60 kWh.

Segundo a BYD, as baterias do modelo recuperam até 80% da carga em 30 minutos no carregador rápido e 100% da carga em 7,5 horas no wall box residencial.

Design – O Dolphin é um modelo da série Ocean da BYD. Além do nome, golfinho, em inglês, diversas formas e texturas, externas e internas, remetem ao mamífero e ao tema oceânico.  Externamente, as formas orgânicas e abauladas destoam da atual tendência de superfícies planas e robustas, denotando inspiração no corpo cilíndrico do carismático animal.

A assinatura luminosa do pequeno conjunto óptico, bem como as diversas partes em forma de bumerangue nos dois para-choques, faz alusão aos olhos e às nadadeiras dos golfinhos, respectivamente.

Os vincos nas laterais do Dolphin reproduzem o rápido deslocamento do bicho na água e a assinatura luminosa das lanternas traseiras traça o movimento dos seus conhecidos saltos nestes momentos. As rodas de cinco pontas lembram estrelas do mar.

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Interior – Internamente, a temática marinha continua. O design das maçanetas é a própria nadadeira dos golfinhos e os apoios de braço das portas são semelhantes à sua barbatana dorsal.

Todas as outras partes internas, sem exceção, têm desenho orgânico, curvas por todos os lados, nada que seja retilíneo, agudo ou plano. Tanto as peças, como a modelagem dos revestimentos, seguem essa orientação curvilínea.

As saídas de ar frontais lembram conchas em caracol e, as superiores, escamas. Estes elementos comuns aos peixes também estão presentes na grelha dos twitters e no padrão gráfico do revestimento sintético que cobre parte do painel principal, das portas e dos bancos.

A textura das borrachas e plásticos de proteção, peças que ficam dentro dos nichos e que revestem a lataria em pontos de contato, também é “escamada”.

Completando os ornamentos que fazem alusão ao mar, a grade dos alto-falantes descreve ondas, o console central parece o corpo de um golfinho e a textura de todas as peças plásticas que não são brilhantes reproduz a superfície rugosa das conchas, tanto nas partes claras, como nas escuras da cabine.

Todos estes materiais, os rígidos e os flexíveis, assim como as peças que compõe a cabine, apresentam elevado nível de construção, montagem e funcionamento.

A estrutura, o peso e a precisão mecânica das peças internas do Dolphin têm qualidade comum a modelos premium.

Cidadania – É surpreendente um carro chinês já atingir este patamar qualitativo, mas algumas características do Dolphin entregam sua cidadania.

Aparentemente, o uso de peças em plástico prateado imitando alumínio e ícones iluminados com LED em azul é um padrão antiquado dos produtos chineses que não deveria estar neste atualizado projeto.

Todos os comandos físicos localizados no volante, painel e console central têm essas duas características.

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Como a cor clara do “alumínio” não contrasta com o azul do LED, igualmente claro, só é fácil identificar estes botões à noite, principalmente para quem usa óculos. Sob a luz do dia, e sem óculos, é impossível.

Acima da média – Deslize à parte, tudo mais no Dolphin está em um patamar acima da média. Quatro adultos têm espaço de sobra para cabeça, ombros e pernas.

O quinto passageiro tem menos área lateral do que o ideal, mas fica mais folgado do que em outros compactos, pois esse hatch tem uma cabine quase do tamanho de um modelo médio.

Como em todos os elétricos, as baterias ficam sob o piso e deixam as pernas dos ocupantes traseiros mais elevadas. Mas, o Dolphin tem distância entre-eixos de 2,70 metros, afastamento de modelo médio, criando uma área para as pernas que é mais comum nos carros maiores.

Os bancos, além do belo revestimento e do design elaborado, apoiam muito bem o corpo, pois a densidade da espuma é alta o suficiente para garantir ótima sustentação em períodos mais longos de deslocamento.

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O console central é inteiriço, não tem apoio regulável, mas está em posição correta, deixando o braço bem posicionado.

Em sua face superior e embaixo existem nichos diversos e volumosos. O painel principal também conta com dois práticos porta-objetos.

Se a área o para ocupantes é ampla, no porta-malas é reduzida (250 litros), como em todos os hatches que priorizam o espaço para as pessoas.

A roda sobressalente rouba volume considerável na área de bagagens, pois a versão Plus do Dolphin usa kit de reparo e não tem essa roda, oferecendo significativos litros a mais no bagageiro.

Sistema de câmeras 360º se destaca, bem como os sensores de aproximação

A ergonomia no Dolphin é acertada, seus comandos físicos estão à mão, mas eles são insuficientes, pois a maioria das operações é feita na tela do multimídia, o que não é o ideal.

Para compensar, este sistema é, realmente, um tablett que gira 90° eletricamente, podendo ser usado na horizontal ou na vertical, inovação de todos os modelos BYD.

Extremamente completo, seus números e letras têm bons tamanhos, mas falta elaboração gráfica e cores mais contrastantes para facilitar a leitura.

Usando o sistema Android, ele permite a maioria das configurações que os celulares baseados nesta plataforma permitem. Usar o fundo escuro é um destes recursos, algo que ameniza essa limitação cromática.

Além das diversas configurações de tela possíveis, todos os sistemas tecnológicos do carro têm páginas dedicadas para a sua operação.

Do ar-condicionado ao desligamento do controle de estabilidade, tudo é feito por meio do multimídia. Todos os equipamentos de bordo funcionam perfeitamente, acompanhando a qualidade geral observada no modelo.

Mas, um recurso merece ser destacado. O sistema de câmeras 360° e os sensores de aproximação têm o melhor conjunto que já avaliamos.

Com imagens em alta definição e simulação 3D do posicionamento do carro no espaço, é possível identificar com precisão a área ocupada por ele, se o Dolphin está corretamente estacionado ou se está invadindo faixas de garagens demarcadas, por exemplo.

Rodando – Andando, o Dolphin EV se destaca mais pela qualidade dinâmica do que por seu desempenho.

Pesando 1.405 kg, suportando carga útil de até 410 kg, a BYD declara que o modelo atinge 100 km/h em 10,9 segundos e tem velocidade máxima limitada aos 160 km/h, para preservar a vida útil das baterias.

Um motor baixo e posicionado na linha do eixo dianteiro, assim como as baterias alojadas sob o piso do modelo, deixa o centro de gravidade do Dolphin muito baixo, a despeito de sua carroceria ser alta, semelhante à de um monovolume.

Trabalhando firme e silenciosamente, o conjunto de suspensões isola a cabine de irregularidades do piso e calçamentos, mas em remendos e buracos é perceptível que ele sofre mecanicamente, assim como os painéis plásticos acusam torções na carroceria com pequenos rangidos internos.

A direção elétrica é leve e ganha peso progressivamente, deixando o esterço confortável na cidade e na estrada.

Como o entre-eixos é grande, o raio de giro poderia ficar comprometido, mas as rodas viram o suficiente para o Dolphin manobrar como um compacto normal.

Medindo 4,12 metros de comprimento; 1,57 metro de altura e 1,77 metro de largura, ele é mais fácil de estacionar do que o volume externo sugere.

Contando com todo este auxilio das câmeras 360°, fazer manobras no Dolphin é tão fácil quanto em carros bem menores do que ele.

Circulando até os 30 km/h, o Dolphin emite som de nave ou de sinos, tipo caminhão do gás, à escolha do motorista. Acima desta velocidade, ele é silencioso, contando com bom isolamento acústico.

Aos 90 km/h é possível circular no plano com consumo instantâneo de 15 kW/h. Aos 110 km/h, consumindo 18 kW/h.

Nessa velocidade mais baixa, só o atrito dos pneus é ouvido. Na mais alta, o arrasto aerodinâmico se faz presente, mas contido.

Regeneração – Quando em decidas, a regeneração média é de 12 kW/h. Freando intensamente ela chegou até 42 kW/h.

O Dolphin não conta com o modo de regeneração elevada no qual é possível dirigir usando apenas um pedal.

Mesmo assim, em seu modo mais alto de regeneração, dá para circular até 60 km/h desacelerando apenas ao tirar o pé do acelerador, recurso limitado ao meio urbano.

No conjunto, considerando a resposta do Dolphin às acelerações e ao esterço da direção, ele entrega uma experiência dinâmica agradável que, se não é esportiva como em elétricos mais potentes, transmite uma qualidade construtiva condizente com o projeto superior do modelo.

Consumo – Em nosso teste padronizado de consumo rodoviário, realizamos duas voltas no percurso de 38,7 km, uma mantendo 90 km/h e outra, 110 km/h, sempre conduzindo economicamente.

Na volta mais lenta atingimos 8,92 km/kWh e, na mais rápida, 7,46 km/kWh.

No teste padronizado de consumo urbano, em um circuito de 6,3 km, realizamos quatro voltas, totalizando 25,2 km. Simulamos 20 paradas em semáforos com tempos entre 5 e 50 segundos.

Vencemos 152 metros entre o ponto mais alto e o mais baixo do acidentado percurso. O Dolphin EV finalizou este exigente teste com 8,00 km/kWh.

Se o desempenho do Dolphin EV não é brilhante, o seu consumo energético é o melhor entre todos os carros que já avaliamos.

Considerando a capacidade de carga bruta das suas baterias (não foi divulgada a capacidade útil) o modelo percorreria 445 km aos 90 km/h, 334 km aos 110 km/h e 359 km em circuito urbano acidentado, dados que mostram como o teste do Inmetro é rigoroso.

Neste valor de R$ 150 mil, nenhum carro elétrico chega perto de entregar tanto quanto o Dolphin EV.

Somente os concorrentes diretos fazem alguma frente, mas ainda estão orbitando a casa dos R$ 200 mil, mesmo após a redução de preço que sofreram por conta do chinês.

Fotos: Amintas Vidal

Até SUVs compactos, os queridinhos do nosso mercado, estão perdendo consumidores para atual elétrico de entrada da BYD.

Para o ano que vem, a marca promete um elétrico mais barato, custando aproximadamente R$ 100 mil, outro modelo que incomodará bastante a concorrência.

*Colaborador

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