Renault Kardian com câmbio manual é muito divertido

Raros, modelos com este tipo de troca de marcha ainda fazem a alegria dos entusiastas

Amintas Vidal*  (Publicado no Diário do Comércio – Edição: 08/08/2025)

O desejo de ter um utilitário esportivo tomou conta do mercado de automóveis. Todas as marcas têm substituído seus modelos por SUVs.

Além desta tendência, a venda de carros com câmbios automáticos já superou a dos modelos vendidos com câmbio manual e ele também está caminhando para a sua extinção.

Atualmente, apenas os modelos de entrada oferecem a opção por câmbio manual, normalmente, em versão única e acoplado a um motor aspirado.

Felizmente existem exceções e o Renault Kardian com motor turbo e câmbio manual é uma delas.

Veículos recebeu o Kardian Evolution 1.0 turbo com câmbio manual para avaliação, única versão sem o câmbio automatizado de dupla embreagem úmida.

No site da montadora, seu preço sugerido é R$ 112,69 mil, na cor preta sólida. A pintura branca, também sólida, custa R$ 1 mil, e todas as outras metálicas acrescem R$ 1,90 mil ao preço final do modelo.

Os principais equipamentos de série do Kardian Evolution são: ar-condicionado digital; multimídia com espelhamento sem fio; cluster digita de 7 polegadas; chave-canivete com abertura por controle remoto; barras de teto modulares e rodas de 16 polegadas em aço estampado, com calotas especiais e pneus 205/60 R16.

Usando ferramenta que acompanha o modelo, as barras de teto longitudinais podem ser reposicionadas na transversal, permitindo o transporte de carga, sem a necessidade da aquisição de outro acessório.

Em termos de segurança, o Kardian nessa versão de entrada é mais básico. Ele não conta com os equipamentos do conjunto de ADAS presente nas versões mais caras.

Os destaques são: seis airbags; controles eletrônicos de estabilidade e tração; assistente de partida em aclives; sensor e câmera de marcha à ré; faróis e lanternas em LED e monitoramento da pressão dos pneus.

Motor e Câmbio – O Kardian é equipado com o novo motor turbo TCe 1.0 flex que faz parte da mesma família do TCe 1.3 flex, desenvolvido em parceria com a Daimler. Esses dois propulsores compartilham 70% de componentes.

O motor turbo 1.0 conta com injeção direta central com 200 bar de pressão, turbocompressor que trabalha com pressão máxima de 1.5 bar e tem válvula wastegate eletrônica. Seu comando de válvulas é duplo e variável com atuadores elétricos.

Ele entrega potências de 125/120 cv às 5.000 rpm, torques de 220 Nm às 2.250 rpm e 200 Nm às 2.000 rpm, com etanol e gasolina, respectivamente.

Com etanol, 90% do torque (200 Nm) já estão disponíveis às baixas 1.750 rpm. Seu câmbio é manual de seis (6) marchas com embreagem monodisco a seco.

O Kardian foi o primeiro modelo nacional construído sobre a Renault Group Modular Platform (RGMP). Recentemente, a francesa apresentou o Boreal, um SUV médio.

Futuramente, essa base flexível receberá uma picape intermediária que irá concorrer, principalmente, com a Fiat Toro.

Este monobloco pode receber sistemas de propulsão convencionais (monocombustível ou flexível) ou híbridos E-Tech (híbrido leve, 100% híbrido ou do tipo plug-in), com torques entre 200 e 370 Nm. Ela também permite a aplicação de avançadas tecnologias de assistência ao condutor.

Superior – SUV compacto de entrada, o Kardian aposentou o Sandero e o Stepway no Brasil. Derivado do Dacia Sandero romeno de segunda geração, ele é um modelo muito superior aos substituídos.

Prova desta evolução, o Kardian e o novo Nissan Kicks, SUV compacto da marca japonesa que usa essa mesma plataforma, alcançaram, respectivamente, 4 e 5 estrelas no Programa de Avaliação de Carros Novos para América Latina e o Caribe (Latin NCAP), das 5 possíveis.

O Kardian em números: 4,12 metros de comprimento; 2,60 metros de distância entre eixos; 1,75 metro de largura e 1,54 metro de altura.

Seus ângulos de ataque e saída são de 20° e 36°, respectivamente, e ele tem 20,9 cm de vão livre. No seu porta-malas cabem 358 litros de bagagem e o tanque de combustíveis comporta 50 litros, volumes considerados grandes para um SUV derivado de um hatch.

A cabine do Kardian aproveita mais peças do Dacia Sandero do que o seu exterior mas, parte dos painéis e o console foram redesenhados, assim como os materiais de acabamento são mais sofisticados no novo modelo.

O console central é diferente nessa versão mais simples, pois o freio de mão por alavanca e a manopla do câmbio manual não deixam tanto espaço para os nichos.

Espaço – Comparado ao Fiat Pulse e ao Volkswagen Tera, principais concorrentes do Kardian, o “francês” é o maior por dentro. Seu espaço garante muito conforto para pernas, ombros e cabeça de quatro adultos.

Um quinto fica com as pernas abertas, pois o túnel central e os apoios dos bancos dianteiros roubam muito espaço para os pés. A parte central do banco traseiro é confortável, somente, para uma criança.

A amplitude da cabine deixa a ergonomia no limite. Todos os equipamentos internos são alcançados, mas exigem abertura total dos braços para uma pessoa de 1,70 metros.

Volante e pedais estão um pouco à direita em relação ao banco, mas nada que atrapalhe o alinhamento do corpo.

Os bancos dianteiros têm laterais volumosas, seguram o corpo em curvas, mas poderiam ter espuma com maior densidade.

A altura da manopla do câmbio manual está correta, mas, se estivesse um pouco mais à frente, evitaria o contato do cotovelo no banco durante as trocas de marchas.

Direção Elétrica – A direção elétrica é leve em manobras e perde assistência progressivamente, o ideal.

Para o elevado nível dinâmico do Kardian, o volante poderia ser um pouco menor e a resposta ao esterço mais direta, detalhes que combinariam com a esportividade do trio motor, câmbio e suspensão.

O sistema de ar-condicionado automático está entre os melhores existentes, pois tem botões físicos para todas as funções e é muito eficiente na refrigeração.

Não ter saídas de ar para a traseira e desabilitar a recirculação do ar quando se desliga o carro são seus únicos defeitos.

O multimídia é estável ao espelhar sem cabo. Suas características estão na média do mercado, sem destaques.

O quadro de instrumentos, digital e configurável, tem grafismo limpo, mas não é funcional. Só a velocidade é muito visível. Conta-giros em barra é ilegível, quase desnecessário, de tão impreciso.

Rapidez – Na avaliação do Kardian Premiere Edition ficamos impressionados com a rapidez e a precisão das trocas de marchas do câmbio automatizado de dupla embreagem.

Além da esportividade, ele deixa a aceleração muito confortável, pois a progressão é contínua, sem intervalos entre as marchas.

SUV compacto privilegia agilidade e esportividade, o que acaba prejudicando o conforto

Com o câmbio manual a esportividade é ainda maior. As quatro primeiras marchas são mais curtas, tiram o carro da inércia com muita força, cantando os pneus, e não existem buracos entre elas.

Nessa “tocada” mais agressiva, o giro sobe rápido e o torque atinge seu auge em segundos, garantindo desempenho elevado, acima do esperado para um motor 1.0, mesmo ele sendo turbo.

Mas, o conforto cai bastante. Apesar de ser muito divertido para quem gosta de “pilotar”, as pessoas a bordo sentem todos os intervalos entre as trocas de marchas, pois seus corpos são jogados para frente e para trás. Este comportamento “raiz” é muito esportivo, porém, menos confortável.

Essa dinâmica do Kardian manual é permitida pelos encaixes precisos do câmbio e o ótimo acerto da embreagem. O curso das marchas é relativamente curto, favorecendo as trocas rápidas.

A embreagem não é tão baixa como em carros de competição, mas é alta o suficiente para ser leve e progressiva no o uso diário e faz o acoplamento em um curso mínimo necessário para que os engates sejam rápidos, sincronizado com a comutação das marchas.

Suspensão – Acompanhando o desempenho do motor e câmbio, o acerto das suspensões é um pouco mais rígido, visivelmente preparado para conter a inclinação em curvas, tarefa difícil em um modelo com elevado centro de gravidade.

O conjunto trabalha em frequência mais alta, deixando o carro menos confortável em pisos irregulares e em estradas de terra. É o preço que se paga para ser estável no asfalto.

Essa versão usa pneus 205/60 R16. Eles têm laterais mais altas que os pneus 205/55 R17 da Premiere Edition, diferença que contribui com o amortecimento primário e ameniza o desconforto.

O Kardian entra em curvas com pouca inclinação da carroceria, não tende sair de frente ou de traseira, mas a rigidez das suspensões transfere para os pneus a força centrífuga, faz os mesmos cantarem em trajetos sinuosos feitos em velocidades mais elevadas.

Em nosso circuito rodoviário, entramos e saímos de uma ponte elevada em relação à pista. O Kardian fez uma das melhores transições neste teste.

O curso das suspensões foi amplo para ele não decolar muito na entrada e, também, para amortecer sem atingir os batentes na aterrissagem.

Como o Kardian é alto, ele supera lombadas e entradas de garagem sem raspar as partes inferiores. Na terra, passa por facões deixando seu fundo intacto e as suspensões não dão fim de curso.

Aerodinâmica – As suspensões elevadas e a frente alta, primeira mudança promovida em SUVs derivados de hatches, não contribuem com a aerodinâmica.

Apesar da sexta marcha ser bastante longa, permitir circular aos 90 km/h às 1.400 rpm, e aos 110 km/h às 1.850 rpm, o Kardian não desloca bem por inércia, pois tem baixa penetração aerodinâmica, condição também percebida acusticamente.

É visível que o Kardian é um modelo de entrada bem mais refinado do que o Sandero e o Stepway. Seu conforto acústico é superior ao destes carros. Dentro da sua cabine ouve-se um ruído contido, formado pelo conjunto de sons provenientes dos pneus, motor e arrasto aerodinâmico.

Consumo – Em nossos testes padronizados de consumo, o Kardian manual foi quase tão econômico quanto a versão automatizada. Aos 90 km/h a média foi melhor. Nas outras velocidades, um pouco abaixo.

Na estrada, realizamos duas voltas no percurso de 38,7 km, uma mantendo 90 km/h e outra, 110 km/h, sempre conduzindo economicamente.

Na volta mais lenta, o Kardian automatizado registrou 19,7 km/l e, o manual, 20,5 km/l. Na mais rápida, a versão automatizada atingiu 16,5 km/l. Já a manual, alcançou 15,8 km/l.

No teste de consumo urbano rodamos por 25,2 km em velocidades entre 40 e 60 km/h, fazemos 20 paradas simuladas em semáforos e vencemos 152 metros de desnível entre o ponto mais baixo e o mais alto do circuito.

Neste severo teste, o SUV automatizado atingiu a média de 11,8 km/l e o manual cravou 11 km/l. Com ambos os câmbios, o sistema stop&start funcionou em todas as paradas em locais planos, contribuindo com essas excelentes marcas de consumo urbano.

O Kardian é um produto muito superior aos compactos que ele substituiu na linha brasileira da Renault, qualidade reconhecida por diversos prêmios recebidos em 2024.

Essa nova versão com câmbio manual passou a ser a mais acessível, além de entregar muita diversão ao volante.

Imagens vazadas na internet mostram que a linha 2026 do modelo receberá novo painel digital e sistema multimídia maior e mais destacado no painel, equipamentos que realmente mereciam atualização.

Fotos: Amintas Vidal

*Colaborador

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