Fiat 500e: melhor, mais divertido e econômico

Terceira geração do modelo conta com motor 100% elétrico de 118 cv

Amintas Vidal*  (Publicado no Diário do Comércio – Edição: 15/10/2021)

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O Fiat 500 nasceu em 1936 e logo foi apelidado de Topolino. O projeto foi muito bem sucedido ao entrar em um mercado de baixo poder aquisitivo, dominado por bicicletas, ciclomotores e motocicletas. Em pouco tempo, se tornou o carro mais popular da Itália.

Dez anos depois, começaram os estudos para um substituto, lembrando que os tempos da indústria automobilística eram outros. Para um projeto novo sair da prancheta, e chegar às linhas de montagem, se passava quase uma década.

O resultado foi o projeto 100, que seria lançado em 1955 como Fiat 600, um veiculo mais moderno e confortável. O engenheiro Dante Giacosa, responsável pelo novo carro, queria garantir de todas as formas a posição da Fiat no mercado e, sendo assim, paralelamente ao projeto 100, criou o projeto 110, um veículo menor, este sim, um upgrade acessível para quem andava de motocicleta.

Lançado em 1957, recebeu o nome de “Novo 500”, a primeira geração deste clássico que, literalmente, motorizou a Itália e foi produzido até 1975.

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Fruto do Advanced Design, departamento comandado por Roberto Giolito, a segunda geração do Fiat 500 surgiu, comercialmente, 50 anos depois da primeira, em 2007. Primeiro veio o modelo hatch, depois, o cabrio, com capota de lona, ordem inversa à primeira geração que nasceu descapotável para usar menos chapa em sua produção e custar menos.

Além destas, o Fiat 500 ganhou outras duas variações de carroceria ao longo dos últimos anos, o SUV compacto 500X e a minivan 500L. Atualmente, o Fiat 500 hatch e cabrio são vendidos na Europa, exclusivamente, como híbridos, pois contam com um sistema auxiliar elétrico que funciona como fonte para equipamentos periféricos como o ar-condicionado e a direção elétrica e, não, como propulsor do carro.

Ano passado, foi lançado o Fiat 500e, modelo 100% elétrico, a terceira geração do subcompacto. Projetado sobre uma nova plataforma, a Mini EV, ele é um pouco maior que a segunda geração. Porém, suas proporções foram mantidas, tornando-se um sucessor mais encorpado.

Além das tradicionais carrocerias hatch e cabrio, a novidade é a 3+1, variante que tem uma quarta porta, tipo suicida, do lado direito, que ajuda no acesso ao banco traseiro. Essa geração ganhou os títulos Best Design 2020, Red Dot Award 2020 e Green Car, as principais premiações europeias para automóveis, distinções em design e sustentabilidade.

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O DC Auto recebeu, para avaliação, o Fiat 500e na carroceria hatch, versão Icon, de topo de gama. Importada da Itália, ela é a única disponível para o Brasil. No site da montadora, o seu preço sugerido é de R$ 239,99 mil, em qualquer uma das quatro cores: as sólidas branca e preta, a metálica azul e a fosca cinza, esta a cor da unidade avaliada.

Equipamentos – A versão não oferece opcionais. Seus principais equipamentos de série são: teto solar elétrico; ar-condicionado automático digital com agendamento para pré-climatização; direção elétrica; volante com ajuste de altura e profundidade e controles do assistente de condução, do multimídia e do quadro de instrumentos; central multimídia Uconnect 10,25 polegadas com espelhamento sem fio por Apple CarPlay e Android Auto, bluetooth e comandos da climatização; quadro de Instrumentos com visor de 7 polegadas full digital de alta resolução com monitoramento das funções do veículo; carregamento por indução para smartphone (até 15W) com luz indicadora de uso; chave presencial para abertura e fechamento das portas e  partida por botão; painel com acabamento na cor do veículo; bancos e volante revestidos em material sintético que imita o couro bicolor com grafia exclusiva e logo 500-e; rodas em liga leve de 16 polegadas (pneus 195/55 R16) com acabamento escurecido ( com kit fix & go de reparação) e vidros elétricos com sistema one touch.

Os equipamentos de segurança são completos. Seus destaques são: 6 airbags; controle eletrônico de tração e estabilidade (TC + ESC); piloto automático adaptativo (iACC); lane centering (alerta para detecção de faixa); lane control (alerta e auxilio para mudança de faixa involuntária); frenagem de emergência por detecção de obstáculos; monitoramento de ponto cego no retrovisor externo; sistema de ajuste automático para farol alto; reconhecimento de sinalização em via para limite de velocidade; sensores crepuscular e de chuva; espelho retrovisor interno eletrocrômico; parking assist com sensores de estacionamento 360°; câmera de ré com linhas dinâmicas; aviso visual e sonoro para uso de cinto de segurança para todos os passageiros; freios elétricos com Hill Holder (assistente de partida em aclives) e TPMS (sistema de monitoramento pressão dos pneus).

A segunda geração do Fiat 500 resgatou o design clássico de 1957, uma releitura vintage, o mesmo conceito que trouxe para os tempos atuais outros modelos como o Volkswagen New Beetle ou o Mini Cooper, por exemplo.

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Nessa primeira transição, o Fiat 500 trocou a posição do motor e da tração, ambas da traseira para a dianteira, a maior modificação técnica. Agora, na terceira geração, a eletrificação é a grande inovação.

A sua plataforma Mini EV foi desenvolvida, exclusivamente, para modelos elétricos. Mais de 90% dos componentes desta nova geração são inéditos. A posição da bateria sob o assoalho e entre os eixos melhora a distribuição de peso, abaixa o centro de gravidade e, consequentemente, amplia a estabilidade do subcompacto.

Elétrico – A arquitetura recebeu um sistema de baterias de íons de lítio de alta capacidade de armazenamento, 42 kWh. O motor elétrico entrega 87 kW, o que equivale a 118 cv, e atinge 220 Nm, ou 22,4 kgfm de torque.

Entregues, praticamente, em todas as rotações, estes números garantem um ótimo desempenho ao modelo. O Fiat 500 elétrico necessita de 9 segundos para sair da imobilidade e atingir 100 km/h e 4,8 segundos para retomar dos 60 km/h aos 100 km/h, segundo a Fiat.

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Ainda de acordo com a fabricante, a autonomia do 500e, com a carga total das baterias, é de 320 km e, em condições ideais, pode chegar até aos 460 km. Em seu cálculo de custo, considerando o preço médio dos combustíveis fósseis e do kW, essa autonomia equivaleria a um consumo médio acima de 62 km/l em motores a combustão.

O tempo de recarga varia com a potência dos equipamentos usados. O 500e vem com um cabo padrão de carregamento doméstico que se conecta a uma tomada de três pinos. Nesta, a mais lenta das opções, são necessários, no mínimo, 14 horas na tomada, podendo este tempo ser mais longo, caso a tensão elétrica seja de 110V e, não, de 220V.

Em aparelhos denominados wallbox, que podem ser instalados em residências ou escritórios, este tempo varia entre 4 e 6 horas, dependendo da rede usada e da potência dos equipamentos. Em carregadores comerciais, mais robustos, com sistemas de carga ultra-rápida em corrente contínua de até 85 kW, é possível gerar uma reserva de energia suficiente para viajar 50 quilômetros em apenas 5 minutos e, em 35 minutos, a carga pode atingir até 80% da capacidade total da bateria.

O Fiat 500e utiliza tomada inteligente tipo 2. Ela permite o carregamento tanto em AC (corrente alternada) como em DC (corrente contínua). É denominada “inteligente” por possibilitar programação de carregamento e fornecer informação sobre o estado de carga da bateria.

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500e – Como dissemos acima, a segunda geração do Fiat 500 foi uma interpretação moderna da primeira. Já a terceira, é uma evolução da segunda. O Fiat 500e cresceu apenas 61 mm no cumprimento, 56 mm na largura, 22 mm no entre-eixos e 29 mm na altura. Porém, ele ficou muito mais robusto que seu antecessor.

O vinco lateral realçado, os traços dos para-choques horizontalizados e as peças encaixadas às outras formando grandes e contínuas superfícies, como nos encontros das portas com os para-lamas e com as caixas de ar, deram uma nova dimensão ao modelo, aparentando ser bem maior que estes poucos milímetros sugerem. Ao vivo, a diferença é mais perceptível.

O paradoxo a toda essa robustez é a sua personalidade. A dianteira do Fiat 500 já remetia a um ser simpático, sorridente. No Fiat 500e ela se tornou mais feminina, sedutora, sem perder a empatia. O DRL dividido em duas partes criou sobrancelhas.

O proposital vão entre o capô e o para-choque dianteiro deixou uma linha que marca os faróis como se fossem os cílios. As luzes de direção ressaltadas da carroceria arrematam essa linha como um acessório. Feminino e forte, este design não poderia ser mais atual.

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As maçanetas com abertura elétrica e embutidas nas portas, as luzes de posicionamento em forma de aro com o centro na cor da carroceria, o logotipo 500 com um traço azul no segundo zero formando um “e”, assim como o mesmo, sem este traço, posicionado na frente do carro, no lugar do nome Fiat, são os outros detalhes estilísticos externos do modelo.

Por dentro, o ganho de espaço é bem menos visível. A área para os ombros foi a única que aparenta ter melhorado, mesmo assim, nos bancos dianteiros. No mais, o modelo continua um típico subcompacto.

Espaço justo na frente e apertado atrás, mais adequado para duas crianças. No porta-malas cabem 185 litros, mesma capacidade da outra geração. Seu peso é 1.290 kg, 220 kg a mais que a versão Cult com motor 1.4 da segunda geração, ganho de massa comum aos modelos elétricos em relação aos seus pares à combustão.

Interior – O design interno também foi aprimorado em sua forma, acabamentos e usabilidade. Todo o painel principal, a tela do multimídia, os comandos do ar-condicionado e os botões de controle do câmbio foram horizontalizados e posicionados para cima.

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Até o volante passou a contar com apenas dois raios e a base achatada, potencializando essa orientação das linhas internas que ampliaram a cabine visualmente.

Além do duplo raio do volante, o painel de instrumentos continua redondo, heranças da primeira geração do Fiat 500. A concentração dos comandos em posição elevada, e a não necessidade de um túnel central, deixou livre a área entre os dois bancos dianteiros, configuração que arejou ainda mais o interior.

O painel principal na cor da carroceria e a moldura na cor prata que adorna todo este painel é uma solução de design moderna e sofisticada ao mesmo tempo. Não existem materiais emborrachados revestindo as outras partes, mas os plásticos aparentes são de alta qualidade. O revestimento dos bancos, dos apoios de braço e do volante aparenta ótima qualidade e compensam a escassez de superfícies macias ao toque.

A abertura elétrica das portas se repete no interior. Um botão nos puxadores das portas, igual ao usado para a ignição, destrava e abre as mesmas. Dentro dos seus bolsões, existe uma alavanca física para o caso de pane elétrica.

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Também por botões de pressão, o câmbio é acionado com os mesmos controles dos modelos automáticos. O ar-condicionado manteve-se com botões físicos. O da temperatura, e o da velocidade da ventilação, funcionam para cima e para baixo, aumentando e diminuindo essas regulagens.

Sob estes controles, existe um grande nicho para o carregador de celular por indução. Na borracha que reveste este espaço está um dos easter eggs do modelo, o recorte de prédios famosos da cidade de Turim. O outro fica dentro dos puxadores das portas. Ele traz o desenho do Fiat 500 de 1957 e a frase “made in Torino”.

Modelo possui torque e potência quase instantâneos

Design e engenharia à parte, o melhor do 500e está ao volante. Dirigir um elétrico é sempre uma descoberta de soluções que cada montadora encontra para adaptar seu público a essa nova experiência.

No caso do Fiat 500e ela é marcada por sons e música. Ao ser ligado, ficar em “ready”, um breve tema sonoro é emitido, assim como ocorre com outras ações a bordo, quando são ouvidas outras assinaturas sonoras. Essas informações substituem o ruído do motor ou a interrupção do mesmo, por exemplo, uma vez que o motor elétrico é totalmente silencioso.

No princípio do deslocamento, o modelo emite um zumbido externamente que, não por acaso, remete aos sons de carros voadores dos desenhos animados e filmes de nossa infância. Este recurso tem a função de alertar pedestres até o carro atingir 20 km/h. Quando atinge os 25 km/h, pela primeira vez depois de ligado, o tema “Amarcord”, do italiano Nino Rota, é tocado brevemente.

Outra diferença que não passa em branco é a reposta do motor ao pé direito. Com torque e potência quase instantâneos, o Fiat 500e acelera como um esportivo e com uma progressão linear, diferentemente dos motores a combustão que são mais ou menos eficientes, dependendo do regime de rotação em que se encontram.

Três programações da intensidade de regeneração da carga das baterias definem modos de condução distintos e influenciam diretamente na autonomia do veículo. No Normal, ao aliviar o pé do acelerador, o carro continua seu deslocamento por inércia, a regeneração é mínima e ela só se acentua quando se pisa no freio. Esse modo apresenta a função creeping, na qual o veículo inicia seu movimento ao liberar o pedal do freio, como em um carro automático comum.

O modo Range habilita a função One Pedal Driving. Nele, o carro só entra em movimento quando o acelerador é acionado. Quando é aliviado, a regeneração da bateria é ativada intensamente, desacelerando o carro.

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O sistema interpreta o movimento de liberação do acelerador, considerando a velocidade da ação e o curso do mesmo, modulando com maior ou menor retenção do veículo, permitindo uma condução, praticamente, usando apenas o pedal do acelerador. O pedal do freio só é usado em paradas mais fortes.

No modo Sherpa, a velocidade máxima é limitada a 80 km/h, o acelerador responde mais progressivamente para economizar energia, o ar-condicionado e os sistemas de aquecimento são desligados para reduzir ao mínimo o consumo e, assim, garantir que o condutor alcance o destino definido no sistema de navegação ou a estação de carregamento mais próxima.

Sem o barulho do motor, o ruído dos pneus sobre o asfalto e do vento contra a carroceria ficam mais presentes que o normal. O isolamento acústico do modelo é suficiente para entregar conforto sonoro, tanto no circuito urbano, quanto no rodoviário.

Conforto – Pesado e baixo, o Fiat 500e tem um acerto das suspensões mais rígido, característica que garante uma estabilidade excelente. Seu curto entre-eixos possibilita respostas rápidas da direção, comportamento que faz lembrar um kart.

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Contudo, o conforto de marcha se mantém em pisos lisos. Sobre ondulações e asfalto esburacado os pneus e suspensões sofrem com os impactos e transferem vibrações para a cabine.

Ao término da nossa avaliação, o modelo cumpriu a autonomia prometida. Usando 78% da carga da bateria, rodamos 246 km. Neste consumo, chagaríamos aos 315 km com 100% da energia acumulada, apenas 5 km a menos que a especificação da montadora.

Em nossos testes padronizados de consumo pudemos aferir o consumo do Fiat 500e em km/kWh, dado fornecido pelo completo computador de bordo. No teste de consumo rodoviário, realizamos duas voltas no percurso de 38,7 km, uma mantendo 90 km/h e outra, 110 km/h, sempre conduzindo economicamente. Na volta mais lenta atingimos 8,4 km/kWh e, na mais rápida, 7,0 km/kWh.

No teste padronizado de consumo urbano, em um circuito de 6,3 km, realizamos quatro voltas, totalizando 25,2 km. Simulamos 20 paradas em semáforos com tempos entre 5 e 50 segundos. Vencemos 152 metros entre o ponto mais alto e o mais baixo do acidentado percurso.

DSCN0011Fotos: Amintas Vidal

O Fiat 500e finalizou este exigente teste com 7,9 km/kWh, uma média melhor que a obtida aos 110 km/h, algo que sinaliza uma maior eficiência no anda e para das cidades em comparação ao atingir e manter velocidades maiores em estradas.

O Fiat 500 sempre cativou mais pela emoção do que pela razão. Agora, elétrico e mais belo do que nunca, ele vai continuar virando a cabeça de muitas pessoas pelas ruas do Brasil e estacionando na garagem dos poucos que podem pagar por um carro tão divertido de guiar.

*Colaborador

Acesse o nosso site: http://www.diariodocomercio.com.br

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